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A importância de romper as barreiras culturais
As barreiras geográficas se tornam cada vez mais transponíveis no mundo contemporâneo e fazer esse tipo de negócio não é tarefa fácil. Saber como lidar com culturas diversas vem se tornando essencial. Susana Zipman, diretora do Centro Latino de Línguas (CLL), instituto especializado em ensino de espanhol para executivo, fala ao E&R sobre como conhecer a cultura do país pode ajudar nos negócios internacionais.
Emprego e Renda: De que maneira e até que ponto as diferenças culturais são capazes de afetar os negócios?
Susana Zipman: Os profissionais precisam cada vez mais de ampliar sua capacidade de negociação e também ter maior flexibilidade. É necessário ter informações sobre algumas particularidades culturais do outro lado, tanto se somos estudantes de um novo idioma, quanto se somos professores de uma segunda língua, ou ainda profissionais, e precisamos interagir com pessoas de outro idiioma.
Não podemos nos esquecer que a comunicação humana vai mais além da comunicação verbal. Então as diferenças culturais podem aparecer desde os gestos no início de uma reunião, a maneira de demonstrar interesse ao receber o cartão de visitas do interlocutor, à maneira como nos dirigimos ao mesmo, passando pelas palavras utilizadas. Esses fatores podem ser essenciais para fechar um bom negócio, e necessitam ser muito bem conhecidos pelos executivos, antes de iniciar as reuniões ou visitas internacionais.
E&R: Quais são as gafes mais comuns nesses momentos?
S.Z.: Existem tópicos que definem que cada grupo de pessoas, em cada país, tem suas próprias concepções: a confiança (demonstrá-la ou não), a personalização (o suposto papel facilitador dos negociadores), o fator tempo (se está fixado e é imutável, ou se pode ter elasticidade relativa), a hierarquia (neste item há que se levar em conta com que tipo de empresa vai negociar), o improviso (permitido, negado, tolerado...). Somam-se outros pontos: ver o negócio de forma global, prestar atenção ou não aos detalhes, deixar que a amizade ou a família interfiram. Todos esses tópicos são imprescindíveis, e podem nos levar a gafes que comprometem os negócios.
E&R: Qual é o trabalho feito pelo CLL no sentido de introduzir o empresário na cultura do país com o qual mantém relacionamento?
S.Z.: Fazemos com que o aluno preste atenção às sutilezas da língua, para introduzi-lo o mais rapidamente no âmbito do discurso, da argumentação e a contra-argumentação. Imediatamente, é necessário que o aluno entenda que o castelhano é muito rico: em cada país, encontrará “variantes” e deve estar preparado para estas surpresas. Por isso, temos professores da maior variedade possível de nacionalidades: equatorianos, guatemaltecos, chilenos, paraguaios, argentinos, venezuelanos, espanhóis... e, dentro de cada país é preciso lembrar ao aluno que nem todos são “paulistas ou cariocas”. Também existem os “mineiros, gaúchos, cearenses...” e todos se expressam de acordo com a região de onde provém. Demonstrar ao “outro” (a relação em geral é de cliente-fornecedor) que sabemos alguma coisa do seu país já é um passo à frente. Se soubermos seu idioma, teremos dois passos a nosso favor. E assim, sucessivamente.
Ao colocar professores específicos de cada região/país, aproveitamos para organizar, dependendo da necessidade do aluno, e do programa montado, várias “dicas” sobre a cultura local, auxiliando no processo de adaptação do aluno e facilitando o desenvolvimento de suas atividades.
E&R: Em números, o crescimento nesse setor é significativo? Qual o motivo?
S.Z.: Trata-se de um tipo de treinamento específico e que demanda da empresa e do aluno uma compreensão muito clara de como isso auxiliará uma adaptação do aluno, ou mesmo apenas uma negociação que pode ser vital para os negócios da empresa. É necessário ressaltar esse comprometimento, pois o aluno ficará fora da empresa no horário comercial pelo período de uma semana (o que é muito tempo para um executivo) e com o mínimo possível de interrupções.
Mesmo com essas características bem específicas, percebemos um aumento exponencial no número de interessados, pois o resultado é muito bom, gerando um boca-a-boca muito forte dentro das empresas em que executivos utilizam esse serviço, e também entre os próprios executivos que o recomendam para seus conhecidos.
E&R: Qual é a procura das empresas por esse tipo de curso, como eles são ministrados, e como são feitas essas parcerias?
S.Z.: Algumas empresas procuram o curso quando o executivo já está no novo país, outras empresas procuram quando falta pouco para esta mudança. Mas, algumas empresas começam a mostrar interesse em preparar seus executivos com um pouco mais de tempo, a fim de não impor um motivo a mais de stress para as pessoas que algum dia possam ter que viver em outro lugar. Neste caso, trabalhamos com mais calma e firmeza. Devemos lembrar que Geert Hofstede, quando definiu em seu livro “Culturas e Organizações” (1999) a cultura, nos disse: “cada pessoa leva dentro de si, modelos de pensamento, sentimento e atuação potencial que aprendeu ao longo de sua vida... Tão rápido como certos modelos de pensamento, sentimento e atuação foram estabelecidos na mente de uma pessoa, esta deve desaprendê-los para poder aprender algo diferente e desaprender é mais difícil que aprender pela primeira vez”. (Os modelos mencionados são chamados de software mental). Enquanto a forma em que estabelecemos as parcerias, depende do departamento de RH de cada empresa e de sua política interna.
Conforme citado acima, após “entrarmos” em uma empresa, torna-se mais comum que outros executivos da mesma empresa procurem esse serviço, principalmente ao perceber os resultados obtidos por seus colegas de trabalho.