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Psicanálise dos Contos de Fadas
A poética de Aristóteles
Desde a Antiguidade, o ser humano vem contando histórias, de diferentes formas, em diferentes linguagens. Primeiro, usou a narração oral, o teatro, o texto escrito; nos tempos modernos, o cinema e a televisão, e muitas outras artes, como a pintura e a escultura, que fazem parte das formas da expressão humana. Formas estas de expressão que derivam para diferentes linguagens, mas que, invariavelmente, têm muitas características em comum.
Outro aspecto interessante é que ele define o termo “peripécia”, como o que faz a história andar, e que deve estar presente em qualquer narrativa. Numa história, teríamos inicialmente uma situação de equilíbrio, que, por conta de algum fato relevante, torna-se desequilibrada, exigindo a ação do herói, que vai enfrentar diversas peripécias até que se tenha um desfecho e o restabelecimento do equilíbrio.
A importância da “peripécia” é tão grande na narrativa que muitos estudiosos afirmam que na narrativa clássica o que se tem é um final conhecido pelo leitor/ espectador (ou pelo menos esperado), e que a função do autor é criar peripécias para retardar o desfecho, ou seja, ela é o recheio da história.
Aristóteles também estabelece diversos outros conceitos importantes para o bom andamento de uma história. É o caso do que ele chama de “reconhecimento”, em que ocorre uma passagem “do ignorar para o conhecer”. Por exemplo: ao final da história, as personagens principais descobrem que, na verdade, eram irmãos. Quem nunca viu isso em um livro ou novela? Uma situação que consideramos clichê, mas que, na verdade, faz parte de uma “receita” estabelecida desde os tempos aristotélicos.
Daí em diante, alternam-se as sequências com os ladrões roubando e a polícia a caminho, cada vez mais rápidas e nervosas, até se criar uma situação de suspense em que o espectador se afunde na cadeira de ansiedade, e se pergunte totalmente envolvido: será que a polícia chegará a tempo?
Por esses e muitos outros conceitos, a “Poética” de Aristóteles, apesar de ter se tornado, de certa forma, anacrônica nos detalhes, serviu e ainda serve de guia para autores de todos os tempos, surgindo daí o conceito de “narrativa clássica”, presente nos dias de hoje em novelas e séries da TV, em cinema, gibis e, claro, na maior parte dos livros de ficção.
Ao ler um livro ou ver um filme, pense nisso. Existem técnicas para se criar uma história, o que faz com que a leitura possa ir muito além do que está explícito nas páginas impressas.
Os contos de fadas e a psicanálise
Além das características da obra, discutidas anteriormente, considere ainda o conceito de catarse, que é um processo em que a energia utilizada na manutenção da separação de sentimentos e partes de si mesmo é liberada, e causa uma sensação de alívio, que, em geral, é acompanhada de lágrimas e às vezes de risos. Por meio da identificação do leitor com o personagem, o autor envolve-se de tal maneira com o que lê, nos momentos de sofrimento, e depois, quando tudo se resolve, os sentimentos personagem/leitor se confundem (para o leitor).
Essa identificação merece uma análise à luz dos conhecimentos da psicologia. Vamos considerar nesse aspecto os contos de fadas e a reação das crianças, em que o efeito da leitura vai além da catarse. A criança tem problemas psicológicos derivados de seu crescimento. Na linguagem psicanalítica, esses problemas são nomeados como decepções narcisísticas, rivalidades fraternas e dilemas edípicos, os quais precisam ser resolvidos, o que, não necessariamente, ocorre no nível da razão.
Por isso, os contos de fadas têm grande valor, porque oferecem dimensões ao imaginário das crianças que elas não poderiam descobrir sozinhas.
Na estrutura dos contos de fadas, nos momentos de catarse, a criança pode estruturar seus devaneios e dar um novo e melhor direcionamento à sua vida.
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